UMA...

  • Busca

7 de novembro de 2009 - 7:22

Powered by
Uma... Atitude

Gorda Sim!
| Avalie esta matéria | Comentário(s): 0
 

Nem pensar em 36. O manequim é de 48 para cima! Movimentos pró-gordinhas estão conquistando cada vez mais adeptos pelo mundo e fortalecendo a auto-estima de quem não tem nenhuma vergonha de assumir que fat is beautiful.
Por Melissa Lenz

Esqueça os padrões de beleza de Gisele Bündchen, Juliana Paes e Angelina Jolie. As musas da vez não têm medo da balança e sabem que seus pneuzinhos podem ser mais sedutores e estonteantes do que as curvas das mulheres apontadas como as mais sensuais do planeta. E para dar um apoio moral – afinal, para ser bonita antes é preciso se sentir –, surgiu nos Estados Unidos o movimento Fat Proud (“Orgulho Gordo”), que está ganhando cada vez mais adeptos pelo mundo através da internet. O objetivo é reforçar a auto-estima das pessoas que pesam mais que o padrão.

O ícone mundial do Fat Proud é a roqueira fashion Beth Ditto, 27 anos, vocalista da banda norte-americana The Gossip. Com 95 kg contidos em 1,57 de altura, a musa adora vestir roupas descoladas e até já posou nua para a capa da revista que há décadas é a bíblia do pop, a New Musical Express (NME). Aliás, a ousada foto lhe rendeu o título de estrela mais cool de 2006, além de tê-la impulsionado a concorrer ao NME Awards como a mulher mais sexy de 2007 (pena que perdeu para a melhor amiga, a magérrima Kate Moss). Beth não se preocupa com suas gordurinhas: “Eu sou muito feliz. O que me deixa chateada é o jeito que as pessoas me tratam. Se você não for gorda, provavelmente não conseguirá me entender. Você pode estar morta ou viciada em drogas, desde que não seja gorda. Isso é um absurdo”, desabafou recentemente à rádio BBC de Londres.

Gorda? Depende...

É tudo uma questão de padronização. Para a psicóloga social e pesquisadora Rachel Moreno, de São Paulo, autora de A beleza impossível (Editora Ágora), ser gordinha é algo extremamente relativo. “Nos últimos anos o padrão de beleza foi ficando mais autoritário. Mesmo que digam que ele é diverso, não é, pois algumas características se repetem o tempo todo”, diz ela. E com razão. Nas pinturas dos séculos passados, mulheres gordas e de formas arredondadas eram o ideal de beleza feminina. Que o digam as musas do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que adorava retratar as mulheres cheinhas em suas obras de arte. E nem precisamos ir tão longe: as medidas perfeitas da top model Gisele Bündchen provavelmente não fariam sucesso quando a diva Marilyn Monroe despontou como símbolo sexual, no século passado. E essa (quem diria?) também não emplacaria agora: com 63 kg em 1,67 m de altura, hoje seria considerada gordinha (pode?)! “A referência de peso diminuiu de maneira drástica”, lamenta a psicóloga. “E isso aumentou os problemas de saúde pública, como bulimia e anorexia, pois as pessoas fazem qualquer sacrifício para chegar a um peso ideal.”

A brasileira Fluvia Lacerda, contratada pela agência Elite dos EUA, mede 1,72 de altura, veste manequim 48 e diz não se pesar. Hoje é a ÚNICA MODELO PLUS SIZE BRASILEIRA trabalhando no exterior.

Top model

Mas esse não é o caso de Flavia Lacerda, carioca de 28 anos que há 11 reside em Nova Iorque. Um dia, atravessando Manhattan de ônibus, uma mulher que se apresentou editora de uma revista de moda perguntou se ela já tinha pensado em trabalhar como modelo de tamanhos grandes. “Pensei que fosse piada, achava que para ser modelo era preciso ser pele e osso”, relembra. Ledo engano... Fluvia tem 1,72 m de altura, veste manequim 48 e diz não se pesar. Contratada há três anos pela agência Elite dos EUA, hoje é a única modelo plussize brasileira trabalhando no exterior.

“Viajo sem parar. Trabalhar em frente às câmeras requer autoconfiança, conhecer a si própria e a seu corpo, e para mim isso veio facilmente”, diz ela, que afirma nunca ter sofrido de baixa auto-estima e detesta comparações com outras mulheres. “Sempre me achei linda de morrer, adoro me vestir bem e me cuidar, faço exercícios físicos e me alimento de forma saudável”. Viver na paranóia de contar calorias? Nem pensar! “Por muito tempo ouvi que deveria fazer dieta, porque meu rosto é lindo e se fosse mais magra seria perfeita”, comenta indignada. “Mas o que nunca lembraram de questionar foi se eu queria passar a vida inteira me escravizando com dietas malucas ou me submeter a cirurgias para me adequar a idéia de perfeição”, comenta.

Mais que engraçadinha

A atriz carioca Mariana Xavier, 28 anos, mede 1,57 m de altura e pesa 80 kg. Ela passou anos brigando com a balança por 5 kg a menos, mas acabou engordando 25 kg em dois anos e meio. E foi aí que ganhou seu primeiro papel em uma novela. Em Duas Caras (Globo), ela aprendia pole dance com a personagem de Flávia Alessandra. “Na época falaram que precisavam de uma gordinha bonita com cara de rica e me chamaram”, lembra.

“Foi muito louco, jamais imaginei que a questão do peso fosse me ajudar.” Ela conta que após sua participação na novela passou a receber emails de várias mulheres acima do peso. “Elas comemoravam por eu ter mostrado que as gordas também podem ser sensuais”, relata. E Mariana nem pensa em emagrecer agora. “Brinco que sou uma oportunista, não quero emagrecer agora e profissionalmente estou em um momento ótimo.” Embora os quilos extras não a façam se considerar mais bonita, Mariana garante que está mais vaidosa do que antes. “Passei a cuidar melhor do cabelo, da maquiagem e das unhas. Tenho amigos que me dizem que estou bem mais bonita hoje”.

Quanto aos movimentos pró-gordinhas, Mariana aprova totalmente, só ressalta que não virem uma apologia à obesidade. “Não tem nada a ver com ser magra ou gorda, é uma questão de auto-estima saber o quanto somos interessantes”, opina. A psicóloga Rachel Moreno concorda: “Só está satisfeito consigo mesmo quem consegue valorizar algum aspecto da vida pessoal, seja através de um trabalho, uma militância, uma relação afetiva... É através disso que a gente se coloca no mundo”. Mas Mariana conta um episódio que a deixou bem nervosa: “Estava numa van, daquelas que ficam pegando os passageiros na rua, o motorista parou em um ponto onde tinha uma mulher gordinha que não quis entrar na condução. Ele falou: ‘Então, não vem, vai andando que você está precisando’. Achei uma grosseria extrema! A gente sofre preconceitos com coisas pequenas”.


Para encarnar sua personagem na série teen Malhação, a atriz Carolinie Figueiredo TEVE QUE ENGORDAR QUASE 9 KG


Auto-descoberta

Pesando 75 kg em 1,67 de altura, a atriz Carolinie Figueiredo (a Domingas de Malhação), 19 anos, afirma que ter engordado quase 9 kg ajudou a abrir sua mente. “Não fiquei tão concentrada só na estética, aprendi a trabalhar outro lado em mim”, avalia. Sua maior dificuldade, no entanto, é encontrar opções de roupas descoladas nas lojas. “Como a ditadura da magreza é muito forte, os números das calças estão cada vez menores e as blusas, valorizando mais a silhueta fina”, queixasse. Mas dessa desvantagem ela soube tirar outro proveito: aprendeu a se vestir de acordo consigo mesma. “Criei meu próprio estilo e já sei o que me atrapalha e o que me favorece”, diz a autêntica garota, que afirma ter aprendido a conhecer o próprio corpo e não se vestir mais apenas de acordo com o que está na moda.



Fórum opiniões diferentes
O mundo trata melhor quem é magro

“Realmente a sociedade e a cultura ocidental, através da propagação de ideais de beleza inviáveis pela mídia, condicionam as pessoas a uma crença única de estética: aquela das modelos, atuais ícones de beleza. Esse padrão preconiza mulheres excessivamente magras e altas, condicionando a sociedade a discriminar aquelas que não se situam dentro dessas expectativas.

As pessoas gordas têm maior dificuldade de empregabilidade. É cada vez mais difícil encontrar roupas. Há, em nome da beleza, um autêntico terrorismo em cima do gordo. Não é incomum poltronas e cadeiras não se adaptarem às suas medidas”, observa Marco Antonio De Tommaso, psicólogo e psicoterapeuta pela Universidade de São Paulo.

Moda democrática

A consultora de moda e estilo Manu Carvalho ensina algumas táticas às gordinhas:

Para a sensualidade: sinta-se segura e confortável com o seu corpo, seja ele de que tamanho for. Charme é uma atitude que só pode ser impressa com segurança. Deixar a pele à mostra, desde que você esteja à vontade, ajuda a ‘esquentar’ a cena.
Para vestir bem: em geral, prefira as linhas verticais às horizontais. Exemplos de linhas verticais: as de camisas e casacos, abertos ou fechados, golas pontudas, malhas caneladas, vinco de calça, bolsa tiracolo, cabelo liso dividido no meio ou em um meio-lateral.
Looks monocromáticos também criam essa idéia, desde que não tenham um corte de contraste de cor no meio. Exemplos de linhas horizontais: bolsos frontais nas camisas, frontais e laterais nas calças, golas arredondadas, bolsas curtas e largas, cabelos mais curtos e cacheados e contrastes de cor na horizontal.

Apertando a tecla F...

A talentosíssima atriz e cantora nova iorquina Nikki Blonsky, 20 anos, diz que nunca se deixou afetar pelas piadinhas infames que ouve desde a infância. Em entrevistas recentes, a estrela da comédia musical Hairspray afirmou sempre ter sido motivo de chacota por conta de ser gordinha, baixinha e encurvada. “Meus pais me alertavam desde pequena que as pessoas que tiram sarro de você são inseguras. Então, acho que se precisam caçoar de mim para se sentirem melhor, que o façam. Francamente, não dou a mínima.” Ao jornal britânico The Guardian ela contou que o primeiro conselho que ouviu de uma agente foi emagrecer para se encaixar nos padrões. “Olhei para ela e respondi: Muito obrigada pelo seu tempo e conselho. Vou pensar sobre ele e... Provavelmente nunca irei usá-lo!”.

Dá pra ser gordinha e saudável?

O índice da massa corpórea (IMC) determina se uma pessoa está dentro ou fora de seu peso ideal. (Para medir o seu, divida o seu peso pela sua altura elevada ao quadrado). “A pessoa está num peso normal se o resultado der entre 19 e 25, de 25 a 30 é considerado sobrepeso e acima de 30 começam os níveis de obesidade”, esclarece a endocrinologista Alessandra Rascovski. As anoréxicas que atingem um IMC abaixo de 17 também correm maior risco de mortalidade. Em todos os casos é indispensável visitar um endocrinologista e fazer um acompanhamento médico. “Você pode ter 8 ou 10 kg acima do seu peso sem ser doente, mas tem que adotar um estilo de vida saudável, praticar pilates, yoga e caminhada podem ajudar”, diz a médica. “Tem que buscar uma alimentação balanceada e saber diferenciar o peso estético do saudável, pois cada pessoa tem um peso factível que é capaz de ter e manter. Se oriento um paciente obeso que emagrece 10% do seu peso, ele ainda é gordinho. Mas isso já melhora o controle da pressão arterial e a glicemia se ele for diabético, por exemplo”, explica ela. Alessandra adverte que é impossível ser obesa e saudável, já que a obesidade vem associada a doenças como colesterol alto, apnéia e cálculo de vesícula, entre outras. Mas questiona: “Quem é mais saudável: a pessoa que faz dietas muito restritivas e não consegue manter o peso ou aquela que se aceita com uns quilinhos a mais?”

Copyright 2008 - Símbolo Comunicação.
É proibida a reprodução do contéudo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.