Ela é uma das mulheres mais transparentes e admiradas da nossa
política atual. É polêmica, não aceita injustiça e faz questão de pôr a mão na massa pelos seus ideais. A ex-ministra Marina Silva conversou com Uma... e contou um pouco da sua rica história de vida.
Marina Osmarina Silva Souza nasceu em Breu Velho, a 70 quilômetros de Rio Branco (AC), onde não havia estradas, escolas e muito menos posto de saúde. Com o pai, começou a trabalhar cortando seringueira e ainda caçava, pescava e plantava para ajudar a pagar as dívidas que ele tinha com o patrão seringalista (ele vivia em regime de semi-escravidão) e melhorar a renda da família. Aos 15, ficou órfã de mãe e teve de assumir a chefia da casa. Por conta de uma hepatite foi para a cidade em busca de tratamento médico e, de quebra, procurar uma escola em que pudesse estudar. “Eu queria ser freira e minha avó dizia que não existia freira analfabeta”, comenta. Para ela, esse foi um processo definitivo para a sua formação política. “Fiquei dois anos e
alguns meses na Casa Matreliza, uma instituição de postulantes a freira que depois viajavam ao Rio de Janeiro para fazer o noviciato. Lá, conheci a Teologia da
Libertação (um braço da Igreja Católica com idéias socialistas, consolidada no Brasil pelo frei Leonardo (Bo_) e descobri que o meu caminho não era o do convento.”
Chico Mendes, também adepto da Teologia da Libertação, foi o principal responsável por fazer Marina abandonar de vez a idéia de ser freira e se dedicar ao universo comunista. “Eu tinha 17 anos quando decidi assistir a um curso que ele daria.
Pensei: agora vou entender que história é essa de comunismo. E foi assim que começou nossa história de amizade e companheirismo”, conta. Começava também uma história intensa de ativismo político. Pouco tempo depois, em 1985, nascia, em Rio Branco, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), coordenada pela nova dupla.
“Em qualquer lugar você tem que ser um ser humano inteiro: com dúvidas, respostas, medos, certezas e incertezas, sabendo que a verdade é uma
construção coletiva”
Vida de ministra
Em 1988, Marina foi eleita vereadora. Nessa época, causou polêmica ao decidir devolver
o dinheiro das gratificações que ela e os demais vereadores recebiam. Entrou com um processo exigindo que todos os políticos fizessem o mesmo.
Ganhou a ira dos adversários, mas recebeu o apoio popular. Em seu currículo, soma-se ainda um mandato de senadora (1994) e o posto de Secretária Nacional do Desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores (de 1995 a 1997). Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, foi nomeada ministra do Meio Ambiente.
No cargo, se tornou uma das principais vozes da causa e responsável por diversos projetos.
“Nesses cinco anos e meio fiz o plano de combate ao desmatamento, o da Amazônia sustentável, a política nacional de mudanças climáticas... trabalhos que fazem diferença
a médio e longo prazo”, explica. E por que deixar o cargo, então? “Quando percebi
que existia o risco de revogar as medidas de combate ao desmatamento pedi para sair; foi um gesto político que ajudou o presidente Lula a manter tais medidas, porque o respaldo da opinião pública nacional e internacional foi tão grande, que seria impossível não manter, por exemplo, a questão do veto de crédito para quem desmata ilegalmente”, diz aliviada. E como você acha que fica essa história daqui em diante? “Durante a gestão fizemos mais de vinte operações da polícia federal, cerca de 700 pessoas foram presas, entre elas 120 servidores do Ibama envolvidos com corrupção.
Foi feita uma implementação do plano de combate ao desmatamento que levou a uma redução de 59% em 2005, 2006 e 2007. Mas, como criamos um quadro transparente, veio a pressão para a minha saída. O importante é que, mesmo assim, as medidas foram mantidas e espero que sejam consolidadas”, comemora.
Consolidado, com certeza, está o crédito do seu trabalho. Prova disso são os merecidos Prêmio Goldmann de Meio Ambiente pela América Latina e Caribe (2006) e o Champions of the Earth (2007), concedido a apenas seis outras personalidades, entre eles o ex-vice presidente republicano dos Estados Unidos (e tão engajado quanto), Al Gore.
Mulher de verdade
É impossível não imaginar que ser mulher num ambiente de trabalho em que a maioria usa terno e gravata seja um desafio constante. Mas o que a faz se destacar nesse meio? “A liderança, para mim, não é aquela que faz valer as suas imposições, mas aquela capaz de mediar para que se chegue a grandes negociações. E isso é uma das maiores características das mulheres, pois elas têm facilidade em ouvir, avaliar e entender melhor as pessoas”, orgulha-se.
Daqui para frente Marina tem mais dois anos e meio de mandato como senadora da república.
E garante que vai contribuir com a mesma energia que está acostumada a dedicar às causas sociais e ambientais brasileiras ao longo dos anos.
Depois, pretende voltar a dar aulas de história. E, para finalizar, vai um recado: “Você tem que ser uma pessoa inteira: com dúvidas, respostas, medos, certezas e incertezas, sabendo que a verdade é uma construção coletiva”.
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